mère.
>> domingo, 27 de julho de 2008
Odeio ver aqueles olhos, olhos nos quais a loucura habita, uma loucura contida. Mas eles já foram coloridos um dia, a insanidade acabou consumindo as cores dos olhos teus.
As lágrimas cortam meu rosto, elas me machucam, mãe. Tu me assustas com tua carência, tua dependência...o meu amor por ti dói. Minha garganta aperta, os olhos insistem em gotejar lembranças. Eu as apagria se pudesse, juro. Porque elas me iludem, fazem-me imaginar gritos, palavras sem sentido, uma marca da tua mão no meu rosto, olhos alucinados, mechas de cabelo sem vida,do medo...O medo que me sufocava naquele quarto de hospital escuro, enquanto tu dormias num sono forçado.
As lembranças me fazem querer fugir de ti. Mas eu não posso, não posso afastar-me de ti,mãe. Logo tu, tu que decoraste os meus traços, traços que tu fizeste com dedos de amor. Tu que afagaste meus cabelos e estancaste minhas lágrimas.
"Mamãe,por que estás chorando? Por que ele foi embora sem a gente?"
E tu me abraçavas como se quisesse me pôr sob uma redoma,querias me proteger do mundo e das pessoas.
"As pessoas machucam,filha.Elas não querem,mas machucam."
Deste-me as folhas de outono para ler, e eu as li, eu as devorei. Eu te amo. Então porque sempre que vejo teus olhos caídos sinto vontade de arrastar a cadeira para trás,para ver mais um pôr-do-sol?
0 comentários:
Postar um comentário