à flor vermelha.

>> domingo, 5 de outubro de 2008



Pela primeira vez percebo meus dentes amarelados. Efeito da nicotina, ácido gástrico, tristeza. Pelo menos não vejo o negror dos meus pulmões refletido, talvez se confuda com a minha alma. Mesmo amarelos eles ousam aparecer agora. Um sorriso discreto que mal pode conter o milagre entre os dentes. Podem roubá-lo de nós, amada, tenho medo. Ai que eu morro de saudades, que eu desapareço. Eu não existo, mas tu me inventas e me regas dentro de ti para que eu nasça bonita e sem espinhos pra te machucar. Às vezes queria nunca mais acordar, fingir que eu não estou aqui e que tu não estás aí, nos extremos do jardim. Quero estar no nosso lugar, onde as conversas são intermináveis. Eu te preparo um café e tu compras cigarros e aquelas jujubas caras. Podemos fingir o tempo todo, fechamos a cortinas, tomamos um sonífero, ligamos a tevê e adormecemos de mãos dadas, como se fosse natural. Então eu te mostro a caixinha coberta de nós, com os retalhos que costuramos, com seiva bruta açucarada, sempre estivemos aqui. E eu juro que te compro uma maçã-do-amor todos os dias até ficares gordinha ou vomitares de tanto comer. Eu corro, corro até alcançar tua porta e tu abres, não consigo mais conter o milagre que és, tu roubas o sorriso podre que já é teu, meus braços céticos cingem teu corpo magro antes que te evapores, abraçam até sufocares, até quase quebrar teus ossos tão delicados. Tu choras porque finalmente vamos fugir, mas eu te dou meu coração, mesmo que ele esteja perdido e tu colas os pedacinhos do teu no meu. Eu te carrego nos ombros e te levo, precisas ver isso, querida. Sentas quieta ao meu lado, eu seguro tuas mãos. 'As coisas mais bonitas são aquelas que não existem'. Tu não existes? Mas estás aqui, eu sinto. Então sentes aquela chuva perfumada, sentes as pétalas, numa fusão de cores, caírem no teu rosto, absorvendo tua dor e tua angústia. Chuva de cláudias, chuva de raisas, chuva de amores.

1 comentários:

Raisa. 5 de outubro de 2008 às 11:24  

Uma vez eu ouvi que a chuva abençoava as uniões, levava para longe todo o mal, talvez esteja chovendo em nós, prefiro acreditar que sim. E se há uma chuva de Cláudias eu não quero me secar, talvez até morra de pneumonia ou tuberculose, mas duvido, a tua umidade é qualquer maravilha.

Nos encontramos no chá, nas canções bonitas e com as mãos dadas, porque ainda me restam dedos para contar os dias que sucedem com a tua presença de menina-flor-amada. E restam dentes para sorrir, apesar de eu roer os ossos e dizer que tudo está petrificado e podre.

Eu não sei o que dizer, flor-azul. Mas, eu estou aqui, sempre. E digo, porque tens de ouvir a minha voz que embaralá nossos sonhos e ouves, precisamos sorrir.



Estou feliz por tê-la encontrado, é simples e puro. Não deixarei ninguém roubar-te a felicidade que se estampa no teu rosto de flor, assusto todos com minha falta de pernas e sobra de frustrações, assusto e te levo para longe, longe, renasçamos.